Cruzeirão: No município de Itaporanga SP

Entalhes de um Passado Histórico

 

Neste ano de 2013, há exatos cinquenta e quatro anos atrás, me deparei numa manhã ensolarada, após ter passadp a noite na boléia de uma caminhão de mudança que levou nossa familia pra esse lugar o qual até então, eu não conhecia; um pequeno povoado no município de Itaporanga SP nome este,  que em tupi-guarani significa ita=pedra e poranga=bonita. Era povoado, mais parecendo um arraial, escondido entre as árvores do cerrado, bem no alto de uma colina imponente. O nome desta pequena aglomeração diferente pela disposição de suas casas, galpões e edificações gerais, foi criada possivelmente pelos missionários que por lá passaram algum dia, e dedicaram essa comunidade ao santo primeiro Papa na terra e a quem Jesus entregou o comando de sua Igreja, São Pedro, daí, Patrimônio de São Pedro. O outro nome pelo qual também  é conhecido, é Cruzeiro. Este nome também se deve aos missionários, que um dia fincaram uma grande cruz de madeira no alto daquela colina. Cruzeiro e depois Cruzeirão para distinguir do Cruzeirinho, outro bairro do município de Itaporanga. O Cruzeiro de outrora veio figurar entre os bairros longínquos das cidades mais próximas, de um tempo qundo, os meios de transportes automotivos, eram praticamente inexistentes na região. Distante se localizava o povoado, tanto de Itaporanga em torno de 20 Km, quanto de Coronel Macedo em torno de 15 Km; numa região inóspita de matas e animais silvestres, conhecida com o nome do Bairro Ribeirão Branco. Dizia-se que tribos indígenas em anos anteriores habitavam aquelas matas.

Naqueles tempos idos, eu frequentava a escolinha rural, a Capelinha, cujo santo padroeiro é São Pedro, e as vendinhas que por lá teimavam em subsistir. Foi ali que aprendi de fato a ler, a escrever e calcular com as quatro operações matemáticas. Foi ali que também conheci gente diferente pois onde morávamos antes só vivia entre os parentes, num bairo em que os casamentos entre parentes consanguíneos eram freqüentes; faço alusão ao Bairro Rio da Várzea, no município de Pereiras Estado de São Paulo.

Voltando ao Cruzeirão, o pequeno vilarejo de fato é de gente rude, simples, trabalhadeira, tradicional e muito hospitaleira. Um campinho de futebol estampado entre as árvores e uma fileira de casas, era lugar de entretenimento e esporte para os habitantes. Eu ficava por longos momentos apreciando as peladas e gostava de ver os jogadores correndo e disputando a pelota. Eu só me abstinha desse divertimento,  quando meu pai me proibia de assistir ou de jogar, não entendia eu os seus motivos. Aliás foi por causa desse campinho que um dia na hora do recreio da escola, que ficava um pouco afastada do local, foi quando nós meninos ficamos de castigo dado pela professora, não era Dona Terezinha, mas uma substituta dela. Ocorreu que, enquanto jogávamos e ao darmos por fé, havíamos esquecido de voltarmos na hora certa para a sala de aula ao final do recreio. Quando voltamos, somente as meninas estavam assistindo aula. A professora permitiu nosso ingresso na sala e não falou mais nada a respeito. Nós só fomos sentir que algo estava estranho na hora da saída para casa. A permissão de sair no horário só foi para as meninas e nós meninos tivemos que amargar uma hora a mais e por cima sem aula naquela hora. Era um olhando para a cara do outro sem poder falar, nem comentar nada pois o inspetor da escola era o marido da professora e estava sempre nos vigiando. Naqueles tempos a grande régua descia solta no lombo dos alunos, bem como a palmatória.

Um pouco atrás da Capela havia um pequeno bazar de um Mascate conhecido na região cujo nome pouco recordo, era Jamil ou Jamiro. Era o único e primeiro que possuía um veículo automotor, era um Jeep Willis. Os jogos de cartas eram comuns entre os frequentadores e habitantes do Cruzeirão, a algazarra era total, além de algumas brigas entre eles. Das famílias tradicionais daquelas paragens, me recordo de algumas: existiam os Veigas, os Proenças, os Garcias, os Nunes, os Simões, os Domingues, os Maias, os Claros, os Lopes e os Macedos.

As pequenas e médias propriedades rurais produziam o suficiente apenas para a subsistência de seus habitantes. Vislumbrava-se aqui e acolá pequenas plantações de milho, arroz, feijão, café, abóbora em clareiras abertas nas matas.

Naquele passado de meio século atrás, energia elétrica não existia. As lamparinas abastecidas a querosene eram comuns, para iluminação precária das residências. Água por ser num lugar pouco favorável, isto é no topo da colina o bairro do Cruzeiro ressentia pela dificuldade em obtê-la.

O Patrimônio de São Pedro criava vida mesmo, era durante o mês de junho, durante as festas juninas e principalmente no dia da festa do padroeiro São Pedro. Eu gostava de estar presente em todos os eventos e comilanças. Eu ficava embevecido em ver e ouvir os rojões subirem e espocarem lá no alto com aquela vareta atrás. Traques, bombinhas e busca-pés era o enlevo das garotadas.

Algo curioso naqueles dias festivos,  era o fato de que, quem fosse escolhido para ser o festeiro, ou padrinho da festa; resolvia ele, dar por conta própria comida e bebida farta para todo o povo que participasse da festa. A mim me parecia que isto não agradava ao padre responsável pela comunidade, embora o gesto fosse nobre deveras, mas a arrecadação pelos assados leiloados, ficava comprometida pelo pouco valor que arrecadava.

Durante o ano de 1959, o povo pacato do Cruzeirão era alheio a quase tudo o que acontecia no mundo, pois pouca gente  possuía um rádio a pilha das marcas Tanka ou Semp. Naquele ano Cuba enfrentava o final da guerra civil quando as tropas do governo do ditador Fulgêncio Batista combatiam com as dos guerrilheiros rebeldes liderados por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. Os combates cessaram quando os rebeldes tomaram Havana, a capital, e Fidel Castro assumiu o poder. Castro colocou Cuba aliada aos comuniistas da extinta União Soviética e não da China Comunista. A Guerra Fria estava chegando ao auge. As duas grandes potências mundiais da época: os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, lideradas pela Rússia, disputavam entre si a hegemonia militar, econômica e a conquista do espaço sideral, inclusive com o homem no espaço e a primeira chegada  do homem à lua. ( Iuri Alieksieievitch Gagarin, em cirílico Ю́рий Алексе́евич Гага́рин, (Klushino, 9 de Março de 1934 Kirzhach, 27 de Março de 1968) foi um cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de Abril de 1961, a bordo da Vostok I, uma nave que pesava 4725 quilos.  Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objetivo final do presidente John F. Kennedy, que, em discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. { trecho extraído de Wikilpédia } ) .A fabricação de mísseis nucleares já não era um plano e sim realidade por parte dessas superpotências.

No final da década de 50 com novas tecnologias ao alcance da humanidade, tais como a televisão e transmissões radiof6onicas, agitavam a comunicação de massa, despertando novos sentimentos e emoções, alterando comportamentos e hábitos das pessoas. Profundas transformações iriam ocorrer na década seguinte, como por exemplo, na música, na literatura, e em outras artes

 No Brasil os tradicionais partidos de direita e os militares assistiam impassíveis, mas com certa reserva, aos aspirantes  do poder; um era professor de língua portuguesa, burlesco e caricata, o outro, seu vice, era um gaúcho populista. Jânio da Silva Quadros, embora fosse candidato pela UDN e João Belchior Marques Goulart, candidato de oposição a Jânio pela chapa do PDC, mas também apoiado pela UDN. Os dois candidatos demonstravam suas simpatias para com o socialismo e isto incomodava os militares e os paridos de direita, p.e.  alguma facção da UDN.

Em 1959 o Presidente Juscelino ansiava pela conclusão das obras da construção de Brasília e a transferência da capital do Brasil para o Planalto Central. O Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira pela coligação PSD-PTB estava no penúltimo ano de mandato. O Governador do Estado de São Paulo era o Sr. Carvalho Pinto (Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto ) , pelo partido da UDN. Naquela época no Cruzeirão chegavam os cabos eleitorais com panfletagem, sons e músicas nos alto-falantes. Com toda aquela balbúrdia, eu ficava embevecido e empolgado. Eu só estranhava o fato de meus pais não poderem votar; coitados semi-analfabetos que eram, estavam impossibilitados de manifestar seus anseios cívicos.

Em 1959, a partir do segundo semestre, meu pai me levou até a Escolinha mista do Bairro Ribeirão Branco no Patrimônio do Cruzeirão. A professora era uma da filhas do Sr. Dedé Garcia, seu nome: Terezinha Garcia. A memória me revela de como ela conseguia ministrar as aulas para três séries diferentes ao mesmo tempo, na mesma sala. O seu carinho para com aqueles alunos era como eles fossem seus filhos e principalmente comigo. É uma recordação generosa e forte o bastante para me sentir eterna gratidão para com ele que a visito de vez em quando. Nesse tempo estudavam junto comigo uns 30 alunos, mas os nomes, só uns poucos me recordo, pois como me referi em algum ponto destas páginas, eu só permaneci lá por 2 anos e meio. Dona Têre também tinha uma irmã que de vez em quando a substituía pois também era professora e ela se chamava Rosa. As duas eram sobrinhas do Sr, João Garcia, um senhor que tinha uma vendinha e também era responsável pela segurança do Bairro. Os nomes dos colegas de classe, dos quais me recordo são eles: o José Maria e sua irmã Lúcia, filhos do Sr. Joaquim Bento e Dona Dutra Simões., o filho do Sebastião Nunes cujo apelido era Curiango, o Pedro Nunes Simões “Mosquito”, o Julio Proença filho de Lazinho Proença, os filhos de Vitorino Garcia com Dona Benedita, Aparecida e Aparecido, também o Zezinho Maurício da Veiga, filho do sr João Maurício e dona Luiza, os filhos do Sr. Paulo Rodrigues, Zezinho e Sebastião. Recordo ainda que existia outros alunos dos Veigas, mas não sei precisar os nomes.

Os meios de transportes naquele tempo,  era quase que exclusivamente de tração animal e poucas bicicletas. Os trajetos com freqüência eram feitos a pé ou em lombo de animais. As selas finamente confeccionadas e acabadas, bem como os siões, eram ornamentos de utilidade e exposição. O sião era um tipo de sela com dois pegadores onde as senhoras com seus longos vestidos sentavam de lado sobre os cavalos e aí se seguravam. Outros tipos de transportes, novidades para mimm eram os carroções de quatro rodas puxados por cavalos ou bois. E ainda este outro, um Rastelo; tipo de caçamba sobre dois troncos, puxado por animais, ainda mais esta, a Cangalha que consistia de dois jacás de taquara presos sobre uma sela especial para essa finalidade, posta lombo do animal.

Eu tinha o meu meio de transporte predileto: o meu Sete Quadros, um cavalo grande baio e marchador. Ele fazia parte da minha vida; eu o tratava muito bem e ele retribuía com sua gentileza e fidalguia, emitia um leve relincho de satisfação quando eu dele me aproximava.

Outra novidade, era para mim, o Monjolo dágua em riacho de águas cristalinas numa pequena queda em desnível. Quando o cocho se enchia da água ele abaixava e fazia subir a mão de pilão para beneficiar certa quantidade de cereal colocada no pilão.  O ranger da madeira e o barulho da água sendo despejada e em seguida o baque da batida me enchia de felicidade.

Das comidas servidas na região quase não havia novidade em relação a outros lugares. A única diferença era no cozimento das pamonhas que por lá era comum as salgadas, enquanto eu só conhecia as pamonhas doces. 

Durante o ano de 1960 no Cruzeirão, pouca coisa mudou. Foram feitas algumas trocas de proprietários das vendas e começavam a chegar alguns veículos por lá. Também me recordo que Dona Terezinha, permanecia no bairro durante a semana, inclusive por que tinha seus parentes por lá, seu tio João Garcia e seus primos. Nos finais de semana viajava a cavalo para a casa de seus pais na região de Coronel Macedo, para voltar só na Segunda Feira. Ao freqüentar as aulas minha mãe fazia eu levar um litro de café com leite e um pequeno calderãozinho esmaltado com comida para me alimentar na hora do recreio. Dona Terezinha aquecia os meus alimentos em um fogão a gás para que ficassem quentinhos quando eu fosse me alimentar. 

No Brasil em 1960, no dia 21 de abril, A capital do País passou a ser Brasília e não mais no Rio de Janeiro até então. Naquele ano o Presidente Juscelino terminava o seu mandato. Nos Estados Unidos o Presidente John Fritgerald Kennedy assumia o poder com grande carisma e simpatia dos norte-americanos. O Bloqueio econômico a Cuba  pelos Estados Unidos e a distensão bélica entre as superpotências aumentava.

Guerra da Coréia

Guerra do Vietnã

 

 

 

 Site tuia.com.br     Faustino Emílio da SilvaEmílio da Silva